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Introdução

Nesta seção você encontrará entrevistas exclusivas com várias personalidades, sejam elas cantores ou pessoas envolvidas na produção e/ou licenciamento da série.

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Kozo Morishita

Kozo Morishita

Durante o evento CCXP 2016 (Comic Con Experience), realizado em São Paulo entre os dias 1 e 4 de Dezembro de 2016, no estande da Toei Animation existia uma painel com uma entrevista com o sr. Morishita, que trabalhou como diretor e produtor do anime clássico. Abaixo trazemos a transcrição desta entrevista (ela é a mesma presente no livreto/artbook comemorativo pelos 30 anos da franquia e que estava a venda no evento japonês Complete Works of Saint Seiya em Junho de 2016):

A entrevista originalmente publicada no dia 18 de Junho de 2016

Nascido na província de Shizuoka, canceriano, presidente e CEO da Toei Animation. Depois de estrear como diretor de encenação com "Cutey Honey" (1973), passou a trabalhar principalmente com obras originais. Envolveu-se com um grande número de trabalhos como diretor de encenação, diretor, produtor e planejador. Os principais trabalhos de seu currículo são: "Kiko Kantai Dairugger" XV (1982) - diretor-chefe, "Kosoku Denjin Albegas" (1983) - diretor de série, "Dragon Ball Z" (1989) - planejador, "Dragon Ball GT" (1996) - planejador, "Dr. Slump" (1997) - planejador, "Buddha" (2011) - diretor, "Ashura" (2012) - planejamento e coordenação, "Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses" (2013) - planejamento.


Pergunta 1: Primeiro conte-nos como foi que se envolveu com Os Cavaleiros do Zodíaco?

R: Antes de começar a trabalhar nele, eu estava envolvido com um filme produzido em conjunto com o exterior chamado "Transformers: O Filme" (1986). Graças ao iene que estava barato na época, por efeito do câmbio, tinha orçamento de sobra para produzir um trabalho de altíssima qualidade. Imediatamente depois, me procuraram para fazer "Os Cavaleiros do Zodíaco" e eu queria continuar a fazer algo com a qualidade de "Transformers: O Filme". Shingo Araki já estava definido para cuidar do character design e, pessoalmente, eu considerava que ele era a pessoa ideal para cuidar de "Os Cavaleiros do Zodíaco". O Araki tinha uma habilidade para desenhar bem os cabelos no estilo do Masami Kurumada, fazer a textura das armaduras, assim como expressar aquela ingenuidade típica dos adolescentes. Um anime baseado em uma obra existente costuma sofrer uma checagem dura do autor, mas o Kurumada parecia estar muito satisfeito com o desenho do Araki.

Pergunta 2: "Os Cavaleiros do Zodíaco" era um projeto grandioso para os padrões da Toei Doga (antigo nome da companhia, a empresa passou a ser chamada de Toei Animation em 1998) da época?

R: Era uma série programada para ser exibida aos sábados em horário nobre e em rede nacional. O mangá original estava sendo publicado simultaneamente na revista Shonen Jump e a Bandai, que patrocinava, tinha grandes expectativas em relação ao título. Claro que eu, pessoalmente, também me dediquei muito para dar uma ótima qualidade. Por exemplo, em um anime comum, a representação da sombra da cabeça só chegaria a usar duas cores, mas em "Os Cavaleiros do Zodíaco" utilizávamos de cinco a sete cores. Agora que vivemos a era digital, talvez seja difícil compreender o drama, mas na época, quando pintávamos lâminas de celulose transparente a mão, era algo muito trabalhoso. Os Cavaleiros de Ouro chegavam a ter uma complexidade proibitiva para uma animação e até mesmo o Cavaleiro de Cristal que aparenta ter somente duas cores tinha uma quantidade inacreditável de cores especificadas. Acredito que o que se remunerava aos animadores e aos pintores não compensava o trabalho que tinham. A fotografia da série também era mais sofisticada que das outras animações. Levei muita bronca dos operadores de câmera que reclamavam ter "tantas sequências com zoom e panorâmica que não dá para fazer com o orçamento disponível!" (risos). Estudávamos as composições de imagens dos filmes de Guerra nas Estrelas. Acredito que fizemos muita coisa sem noção para uma simples série de TV (risos).

Pergunta 3: Algo que foi marcante no anime "Os Cavaleiros do Zodíaco" foi a dança do Hyoga antes de lançar o golpe.

R: Incluimos aquilo para criar uma "pausa" que dava um tempo para o oponente atacar e o Cavaleiro atingir o inimigo em contragolpe. Aquela "pausa" cria um efeito muito bom no ritmo da ação. É igual ao "Oomie" dos tradicionais filmes de samurai da Toei. Funciona muito bem esteticamente e tínhamos plena consciência de que muitos nos criticariam dizendo: "o que acontece se for atacado enquanto ficam fazendo pose?" (risos). Tive certeza de que a popularidade do desenho aumentava quando vi uma criança imitando o movimento do Hyoga (risos). Aliás, o movimento do Pégaso antes de lançar os Meteoros de Pégaso foi baseado no mawashiuke (bloqueio circular) do caratê. Mais tarde, a "pausa" foi utilizada como muito efeito em Dragon Ball Z.

Pergunta 4: Fale-nos um pouco dos episódios exclusivos do desenho, como o mestre do Hyoga, o Cavaleiro de Cristal.

R: A disputa mestre e discípulo do episódio 21 aproveitou mminha experiência no episódio 68 de Grendizer, "Maria perdida na nevasca". Foi um episódio que ganhou um cuidado a mais tanto na história quanto no traço porque eu cuidei da direção de encenação e o Araki cuidou da direção de animação. Foi uma trama acrescentada porque havíamos alcançada a história do mangá original. Eu adicionava na série episódios destacando coadjuvantes como o mestre do Hyoga ou o discípulo veterano do Mestre Ancião (Ohko) porque se acrescentássemos apenas enredos centrados no protagonista Seiya, logo esgotaríamos as alternativas dele, por isso me empenhei em aprofundar os personagens secundários e não deixar a história monótona. Mas é um método que reluto em usar porque quando aprofudamos os personagens secundários, corremos o risco de desviar demais da trama principal e abalar a identidade da história. Sei que o Shiryu e o Hyoga possuem fãs, mas nosso alvo principal sãpo as crianças e sei que elas querem ver o Seiya salvando o dia. Se passarmos dois capítulos seguidos, em outras palavras, duas semanas seguidas, com episódios sem o Seiya em ação, elas ficariam entediadas. Os fãs de anime curtiram o Cavaleiro de Cristal e o Ohko, mas acreditamos que a grande maioria do público apoia o protagonista e se for considerar a teoria de criação da história, não destacar o protagonista é uma "derrota" como profissional. Nos dias de hoje, tem espaço para história paralelas centrados em personagens secundários, mas, na época, fazer isso em um desenho animado semanal de meia hora da TV era muito ousado.

Pergunta 5: A partir da Saga de Poseidon (epis. 100), por que passou de diretor para produtor?

R: Graças ao estrondoso sucesso de Os Cavaleiros do Zodíaco, conseguimos não ficar no vermelho, mas por influência dele, a qualidade dos outros trabalhos passou a ser mais exibidas. Me disseram: "as outras equipes de trabalho também estão sofrendo porque seus membros foram contaminados pelo Morishita" (risos). Havia outras séries que também primavam pela qualidade, mas "Os Cavaleiros do Zodíaco" era igual a ir assistir a uma animação no cinema a cada episódio. Por isso me tiraram da frente de trabalho (risos). Mas, mesmo como produtor, acabava dando uma olhada no storyboard, e quando assistia ao filme pronto, pensava: "eu faria de outro jeito". Foi muito difícil ser produtor de "Os Cavaleiros do Zodíaco" por conta desse meu conflito interno (risos).

Pergunta 6: Conte-nos sobre Shingo Araki.

R: Na época em que eu comecei a trabalhar na Toei Doga (atual Toei Animation), ele já era um profissional de destaque na série "Sawamu, o Demolidor" (Kick no Oni) (1970) e, junto com Kazuo Nakamura, desenhava ações magníficas que não tinha comparação nos outros trabalhos da Toei Doga. Era uma época em que a companhia dava maior importância aos filmes de longa metragem para o cinema e as equipes eram boas para fazer ações cômicas, mas não tão boas para ações mais realistas. Na época de transição, quando a Toei Doga começou a investir mais em animações para a TV, animadores habilidosos em fazer cenas de ação realistas vieram para a empresa,como o próprio Araki, o Kazuo Komatsubara e Shinya Takahashi. Em 1975, Tomoharu Katsumata dirigiu um longa metragem chamado "Contos de Andersen, a pequena Sereia" (Anderusen Dowa, Nigyo Hime) e nele participaram o Araki, o Komatsubara e o Takuo Noda. Foi um trabalho diferenciado dentre os longas da Toei Animation e eu, trabalhando como vice-diretor, fiquei encantado com o traço do Araki. O Araki era uma pessoa versátil capaz de fazer ação como em Ashita no Joe (1970) ou história femininas como Angel, a Menina das Flores (Hana no Ko Lun-Lun) (1979). Creio que a versatilidade dele combinou muito bem com "Os Cavaleiros do Zodíaco". A habilidade dele também foi aproveitada em outra obra de Kurumada, "Os Guardiões do Universo" (Fuma no Kojiiro). Ele tinha a capacidade de transpor o traço do trabalho original no estilo anime e desenvolvê-lo ainda mais. E o Araki também era uma pessoa que não fazia "trabalho inútil". Por exemplo, quando precisava corrigir o desenho de um rosto, ele nunca repetia o desenho do rosto completo, colocava outra folha sobre a mesa de luz e só redesenhava a expressão. Nesse sentido, ele era essencialmente um animador. Além disso, o estúdio dele, a Araki Pro, era uma produtora que não terceirizava e fazia tudo dentro do próprio estúdio. Graças a isso conseguiam dar uma expressividade sutil nos olhos e nos cabelos além de entregarem desenhos com uma qualidade inigualável. Posso dizer o mesmo de Michi Himeno que trabalhou muitos anos como o braço direito de Araki e eu sempre me surpreendia com a qualidade do trabalho da Araki Pro. Trinta anos se passaram desde a exibição do anime e há gente que já se aposentou e outros que continuam na ativa. Ele faz muita falta.

Pergunta 7: A que atribui o sucesso de "Os Cavaleiros do Zodíaco"?

R: A época em que me envolvi com "Os Cavaleiros do Zodíaco" e "Dragon Ball Z" foi uma boa época. Era uma época em que os aparelhos de videocassete ainda estava se popularizando e permitiu uma produção que tirávamos proveito do fato de as pessoas só poderem assistir em um horário determinado. Empurrávamos a definição da luta contra o inimigo com a barriga (risos). No entanto, agora que os equipamentos de gravação estão difundidos, isso não funciona mais. Não se cria mais uma "expectativa" igual ao da época em que se assistia aos programas em horário determinado e a facilidade de reprodução de uma série integral numa só tacada não ajuda a criar empatia com os personagens. Acredito que comparada aquela época, vivemos agora uma era que dificulta a criação de novos e grandes movimentos. Aquela era em que havia conjuntura para produzir uma animação em que se podia "adiar" a resolução foi, de certa forma, um milagre.

Pergunta 8: Para finalizar, pode nos dizer o que sente vendo "Os Cavaleiros do Zodíaco" comemorando 30 anos de aniversário.

R: Graças a torcida de todos os fãs, "Os Cavaleiros do Zodíaco" comemora 30 anos de existência. Queremos que este ano comemorativo seja um sucesso para possibilitar comemorar 40 ou até quem sabe 50 anos. Quando estiverem comemorando 50 anos, eu terei 88, mas prometo emitir meus comentários nessa ocasião também (risos).


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última atualização realizada em: 14/12/2018